Holodomor ( Голодомор ) -  é o nome atribuído à fome artificial e genocída ocorrida no território da
antiga República Socialista Soviética da Ucrânia (integrada na U.R.S.S.) durante os anos de 1932–1933.
        Foi a maior tragédia nacional da história da Ucrânia, devido ao enorme custo de vidas humanas, tendo
sido causada pelas políticas deliberadamente aplicadas pelo regime soviético dirigido por Stalin.

Apesar da  fome da  Ucrânia fazer parte de um acontecimento que afetou também outras regiões da URSS,
o  termo  Holodomor  é  especificamente  aplicado  aos  fatos ocorridos nos territórios habitados por popu-
-lações de maioria étnica ucraniana (Ucrânia e a região de Kuban, no Cáucaso do Norte).

           Como tal, o Holodomor é por vezes designado de "genocídio ucraniano" ou "holocausto" ucraniano,
significando que esta  tragédia resultou de uma  ação deliberada  de extermínio desencadeada pelo regime
soviético visando especificamente o povo ucraniano, enquanto entidade étnico-social.

           Tendo  em  consideração  a  definição  legal  de  genocídio, verifica-se  um crescente consenso dos
historiadores relativamente à natureza genocída do Holodomor.

          Simultaneamente  há um número cada vez maior de países que o reconhecem oficialmente como um
ato de genocídio.

           A  palavra  Holodomor  resulta da  expressão  ucraniana moryty holodom ( морити голодом ), que
significa "matar pela fome". O termo foi utilizado pela primeira vez pelo escritor ucraniano Oleksa Musienko,
num relatório apresentado à União dos escritores ucranianos de Kiev, em 1988.

           Todo quarto sábado do mês de novembro, a Ucrânia presta homenagem às vítimas do Holodomor.

Os objetivos

           No  início da década e trinta, Stalin  decidiu  aplicar  uma  nova  política para a U.R.S.S., através da
transformação radical e acelerada das suas estruturas econômicas e sociais, tendo os seguintes objetivos:

1)
A coletivização da agricultura, ou seja, a  apropriação pelo Estado soviético das terras, colheitas, gado e
utensílios pertencentes aos camponeses. Dessa  forma, o Estado passaria a estabelecer planos  de coleta
para a produção agro - pecuária, que lhe permitiam de modo regular e quase gratuito, abastecer as cidades
e as forças armadas, bem como exportar para o estrangeiro.  Por outro lado,  pretendia-se  estabelecer um
efetivo  controle  político-administrativo  sobre  o  campesinato, forçando-o  a  apoiar  o regime soviético.
Esse  apoio  seria  igualmente  garantido  com  a eliminação da camada social mais próspera e favorável à
economia de mercado, os kulaks.

2)
A  industrialização acelerada  da União Soviética, com  base  nas receitas financeiras obtidas através da
exportação dos produtos agrícolas, sobretudo dos cereais.

3)
A "guerra anti-camponesa"
O  processo  de  oletivização acelerada  da  agricultura  e  de " liquidação  dos  kulaks  enquanto  classe  ",
desencadeado  por  decisão do Comitê Central do Partido Comunista da União Soviética, em dezembro de
1929, teve  conseqüências  trágicas  para  milhões  de  pessoas. Para a sua  execução, os funcionários  e
membros  do  Partido  Comunista  que  estavam  presentes nos campos, foram  apoiados por  brigadas  de
operários e de " ativistas " vindos dos centros urbanos. Sendo a  União Soviética um  país  em que a fratura
entre o mundo dominante das cidades e o mundo dominado  das  aldeias continuava a ser profunda, a cole-
tivização  foi  sentida como uma verdadeira guerra declarada pelo Estado contra o modo de vida e a cultura
camponesa  tradicionais. Os  camponeses  ( 82%  da  população  soviética ), depois  de  serem  obrigados,
através  de  todo  tipo  de  abusos  e  violências, a entregar  s bens, são  forçados  a aderir às explorações
agrícolas  coletivas  ( kolkhozes) . Estas  destinavam-se  a abastecer, de forma regular e quase  gratuita, o
Estado com  produtos agrícolas e pecuários,através de planos de coleta fixados pelas autoridades centrais.
Com  base na acusação  arbitrária de pertencerem à categoria dos  kulaks ( camponeses ricos e hostis ao
poder soviético ), os " socialmente estranhos " ao novo  istema  agrícola  kolkhoziano, são  despojados  de
suas terras a título definitivo para outras regiões, principalmente para o Cazaquistão e a Sibéria.
No total, cerca de 2.800.000 pessoas são deportadas:
2.400.000 ( 300.000 são ucranianos ), no contexto da campanha de deskulakização ( 1930-1932 ); 340.000,
devido  à  repressão  da  resistência  às  requisições predatórias pelos organismos estatais encarreguados
de se apoderar dos cereais (1932-1933). No entanto, em muitos  casos, foram  simplesmente abandonadas
nesses  territórios  distantes  e  inóspitos. Em conseqüência disso, aproximadamente 500.000  deportados,
entre  os  quais muitas crianças, morreram devido ao  frio, à fome e ao esgotamento. Por sua vez, cerca de
400.000 camponeses  foram  enviados para uma rede de campos de trabalho forçado ( Gulag ), gerida pela
polícia política ( O.G.P.U. ), e 30.000 são fuzilados.
A  resposta  dos  camponeses  foi  desesperada e freqüentemente  violenta, havendo numerosas manifesta-
-ções, revoltas e distúrbios por todo o país ( mais de 14.000 casos registrados  pelo O.G.P.U., que envolve-
-ram  3 milhões de pessoas, nomeadamente nas regiões do rio Don e do rio Volga,  no Cáucaso  do  Norte,
no Cazaquistão, e sobretudo na Ucrânia. As motivações da sublevação camponesa são múltiplas, surgindo
de acordo com os novos desafios suscitados pela intransigência do Estado soviético: recusa em aderir aos
kolkhozes; oposição  à  política  anti-religiosa das autoridades ( encerramento das igrejas, confiscação dos
sinos,  vandalismo  anti-religioso  dos ativistas  da  Juventude  Comunista ); solidariedade com os kulaks e
outros " elementos anti-soviéticos" vítimas de perseguição; resistência à confiscação pelos órgãos estatais
de coleta, de uma crescente percentagem da produção  agro-pecuária, através de  " desvios " e roubos  da
 colheita "coletiva", numa conjuntura econômica cada vez mais degradada.


1931
: início da fome soviética; decréscimo populacional nas repúblicas soviéticas da Rússia e da Ucrânia.

O âmbito geográfico


      A partir de 1931, com o perfeito conhecimento das autoridades, as crescentes dificuldades alimentares
começam a provocar a morte de centenas de milhares de pessoas, em várias regiões da União Soviética.
A  situação  é  particularmente grave no Cazaquistão,  bem  como  nas principais  áreas cerealíferas como
Ucrânia, Cáucaso  do  Norte e território  do  rio  Volga, que tinham oferecido maior resistência à política de
coletivização agrícola.


As causas da fome

     Excetuando o caso particular do Cazaquistão, as causas do desencadeamento desta tragédia devasta-
-dora foram globalmente idênticas: a grave desorganização do ciclo produtivo agrícola causada pelas medi-
-das de deskulakização que visavam reprimir e eliminar as elites camponesas; a coletivização forçada, que
levou  muitos  dos  camponeses a reagir  de  forma  violenta e desesperada, através da destruição de uma
grande parte do seu patrimônio ( utensílios, animais, colheitas, etc. ); a ineficácia e a miséria que caracteri-
zam os kolkhozes instituídos num contexto de violência e de caos generalizados; as sucessivas e implacá-
-veis vagas de requisição ( coletas ), através das quais o Estado procura dar resposta a um triplo  problema
( dificuldades sentidas no processo de industrialização  acelerada; explosivo crescimento urbano, em resul-
-tado do  êxodo  rural; necessidade  de  travar o agravamento da dívida externa, mediante o crescimento da
exportação de matérias-primas );  a resistência dos camponeses face àquilo que consideravam tratar-se de
uma " segunda servidão " designada por Nikolai Bukharin, de " exploração militar-feudal " trabalhando cada
vez  menos, devido  à  sua  rejeição do modelo  coletivista  imposto  pelo  regime, ou  em conseqüência da
debilidade  física  gerada  pelas  dificuldades alimentares; as más condições metereológicas que prejudica-ram as colheitas de 1932. Por conseguinte, a fome desencadeada em 1931 -  embora a uma escala reduzi-
da em comparação com os 2 anos subseqüentes - é na sua origem, o resultado imprevisto e não programa-
do  de  uma  política  de inspiração marxista  que pretendia eliminar as bases sociais e os mecanismos da
economia capitalista.
Havia no entanto a plena consciência por parte das forças em confronto, Estado e camponeses, de que se
estava a reeditar a situação de violência e de fome que caracterizara o período do "Comunismo de Guerra"
(1918-1921).

1932-1933: o Holodomor ucraniano


        Em 1931 como conseqüência das más colheitas na Sibéria Ocidental e no Cazaquistão, milhares de
kolkhozes da Ucrânia, do Cáucaso do Norte e da região do rio Don, foram alvo de requisições acrescidas.
Desse  modo, os órgãos estatais de  coleta, apesar de  uma  colheita  bastante medíocre  ( 69 milhões de
toneladas ), conseguiram obter perto de 23 milhões de toneladas. A Ucrânia foi  obrigada  a contribuir com
42% da sua produção, o que provocou o agravamento da desorganização do ciclo produtivo iniciada com a
coletivização forçada.
Na  Ucrânia  e  em  outras regiões, a partir da primavera de 1932, assistiu-se ao alastramento da fome e ao
êxodo dos camponeses em direção às cidades, suscitando a preocupação das autoridades, nomeadamen-
-te  dos  dirigentes  das  repúblicas. Por  seu  lado, o governo animado com o  êxito das requisições, fixa o
plano de coleta  para  1932  em  29,5  milhões  de  toneladas, dos  quais  7 milhões devem  ser obtidos na
Ucrânia. Entre os camponeses, determinados a usar todos os meios para conservar parte da colheita, e as
autoridades locais, obrigadas acumprir o plano  de coleta, o conflito era inevitável. Com efeito, esses planos
são de tal modo elevados, que os obrigam a  tentar esconder  a maior quantidade possível de cereais, para
garantir as reservas alimentares indispensáveis à sua sobrevivência.
A campanha de coleta de 1932 depara-se, por isso, desde o  início, com inúmeras dificuldades: manifesta-
-ções  de camponeses atingidos pela fome; fuga dos kolkhozes de um crescente número de trabalhadores;
roubo de bens pertencentes aos kolkhozes ( gado,utensílios e sobretudo colheitas ); recusa de muitos  fun-
-cionários locais e regionais do Partido e dos sovietes em aplicar planos de coleta que condenariam à fome
dezenas de milhões de pessoas.
Inicialmente, Stalin manifesta a sua crescente impaciência face ao ritmo lento que caracteriza a campanha
de requisições na Ucrânia, acusando os dirigentes locais de serem os responsáveis pela situação, devido à
sua atenuação e falta de firmeza, perante os "atos de sabotagem" e de "terrorismo".
Para superar essas  dificuldades, a  07 de agosto de 1932, entra em vigor a tristemente famosa lei sobre o
" roubo e dilapidação da propriedade social " conhecida por " lei das cinco espigas ", punível com dez anos
de campo de trabalho forçado, ou com a pena capital.
As brigadas  encarregadas da coleta efetuam autênticas expedições punitivas, nomeadamente nas regiões
cerealíferas. Estas requisições são acompanhadas de inúmeros abusos, violências físicas e detenções ma-
-ciças  de kolkhozianos. Apesar  de  uma repressão extremamente dura  ( mais de 100.000 pessoas foram
condenadas nos primeiros meses de aplicação da lei) e de uma ligeira diminuição dos objetivos dos planos
de coleta, em 25 de outubro, Moscou só coletara 39% da quantidade exigida à Ucrânia.

A "interpretação nacional" de Stalin

    Mas entre julho e agosto de 1932, Stalin concebeu uma nova análise da situação na Ucrânia e das suas
causas, expressa a 11 de agosto, numa carta endereçada  a  Kaganovitch:" A Ucrânia é hoje em dia a prin-
-cipal questão , estando o partido, o Estado e mesmo os órgãos da polícia  política da república, infestados
de  agentes nacionalistas e de espiões polacos, correndo-se o risco de "se perder" a Ucrânia, uma Ucrânia
que, pelo contrário, é preciso transformar numa fortaleza bolchevique ". Na perspectiva do ditador, o Partido
Comunista e o Governo ucranianos tinham sido infiltrados por agentes nacionalistas "Petliuristas" e espiões
polacos "agentes de Pilsudski", e as aldeias renitentes à coletivização, estavam sob a influência de agitado-
-res contra-revolucionários. A decisão de utilizar a fome, provocando artificialmente o seu alastramento para
'dar uma lição' aos camponeses, foi tomada no outono num contexto especialmente delicado para o ditador
com  o  agravamento  da crise  provocada pelo  1.º plano  qüinqüenal e o suicídio da sua esposa Nadezhda
Alliluyeva.
Em 22 de outubro de 1932, são enviadas para a  Ucrânia e  Cáucaso do Norte  duas " comissões  extraordi-
-nárias " dirigidas respectivamente por Vyacheslav Molotov e Lazar Kaganovitch com o objetivo de "acelerar
as coletas" e tendo o apoio dos mais altos responsáveis do O.G.P.U. (incluindo Genrikh Yagoda).
Simultaneamente, milhares de agentes da  polícia  política e de " plenipotenciários " do Partido foram trans-
-feridos, para combater a ineficácia das estruturas comunistas locais e reprimir qualquer indício de " sabota-
-gem ". Entre  novembro  e dezembro  de 1932, mais  de 27 mil  pessoas  são detidas, sendo que 30% são
dirigentes de kolkhozes e pequenos funcionários rurais, com base na acusação de " sabotagem dos planos
de coleta ".
O recurso à "arma da fome " adquire uma lógica e uma violência particulares nos territórios essencialmente
ucranianos. Stalin em perfeita coerência com a sua própria análise acerca das origens e dinâmicas do fenô-
meno nacional, considerava a  Ucrânia um caso especialmente grave, devido à interligação profunda entre o
nacionalismo e o campesinato.
Em conformidade com esta análise, o dirigente do O.G.P.U.ucraniano Vsevolod Balystsky define, em 05 de
dezembro de 1932, como principal missão  a  desempenhar  pela  polícia  política  da república: “ o urgente
 desmantelamento, identificação e esmagamento dos elementos contra-revolucionários  e kulak-petliuristas
que estão a sabotar as medidas aplicadas pelo Governo Soviético e pelo Partido nas aldeias”.

A repressão do campesinato ucraniano

       Em  resultado da " interpretação nacional " que Stalin fez da situação ucraniana, a decisão de utilizar a
fome nesses territórios adquire características específicas de natureza genocída; assiste-se a uma escalada
de medidas repressivas, em grande parte diferentes das aplicadas em outros pontos da União Soviética.
Em 18 e 20 de novembro de 1932 o  Comitê  Central  ucraniano  impõe  respectivamente  aos  camponeses
particulares e aos  kolkhozes, diversas multas em gêneros alimentícios, no caso de não cumprimento ou de
sabotagem do plano de coleta; em 01 de dezembro de 1932, é interditada a comercialização da  batata nos
distritos refratários, e em 03 de dezembro, esta  medida é  igualmente  aplicada à carne e aos  animais; em
06  de  dezembro  de 1932, com base no princípio da responsabilidade  coletiva, as  aldeias sujeitas a  esta
punição passam a fazer parte de " listas negras "; em 15 de dezembro de 1932, é proibida a importação  de
artigos  manufaturados  pelos  istritos  que não tenham cumprido  o  plano de requisição; entre o outono e o
inverno de 1932, é  implantado nas fronteiras da Ucrânia - pelas tropas do Ministério do Interior  e da  milícia
- um  bloqueio ao  fornecimento  de  alimentos. Esta  medida, impede os camponeses  atingidos pela  fome
de  procurar  comida  na  Rússia  e  em outras regiões, ou de a trazer  para  a Ucrânia; em 22 de janeiro de
1933, Stalin  e  Molotov  dão ordens à polícia política  para que  impeça o êxodo dos camponeses  famintos
da  Ucrânia  e  do  Cáucaso  do Norte, que em desespero  procuravam  obter  comida  noutras zonas. Para
justificar  esta  decisão, declararam  estar convictos  de que esta situação é " organizada pelos inimigos do
poder soviético, os socialistas revolucionários e agentes polacos com  objetivos de propaganda, para desa-
-creditar, por  intermédio  dos camponeses que fogem  para outras regiões da U.R.S.S., a norte da Ucrânia,
o sistema  kolkhoziano, em particular, e o sistema soviético, em geral "; nessas regiões, é suspensa a ven-
-da  de  bilhetes  de  trens e são montadas  barreiras policiais nas estações ferroviárias e nas estradas que
levam às cidades. Só  no decurso do mês de  fevereiro de 1933, são detidas 220 mil pessoas, fundamental-
-mente  camponeses à procura de comida, dos quais  190 mil  são obrigados a regressar  às aldeias  para
ali morrerem de fome; em conformidade com a decisão tomada pelo conselho dos Comissários do Povo da
União Soviética em 27 de dezembro de 1932, o governo da Ucrânia decreta, em 31 de dezembro, a criação
do passaporte interno. Esta medida exclui os camponeses que ficam “ presos ” à sua terra, numa situação
semelhante à do " servo da gleba " além da atividade exercida no âmbito do combate aos " sabotadores do
plano de coletas "-  apoio às brigadas encarregadas de localizar os cereais escondidos pelos camponeses,
recorrendo a  todo  tipo  de violências e abusos; deportação das populações mais insubmissas e detenção
dos  acusados  de  sabotagem - a polícia política é a única  organização autorizada a recolher informações
sobre a fome, de acordo com o decreto do Politburo, de 16 de fevereiro de 1933.
A confirmação de que a fome servia para impor a total  obediência dos camponeses aos ditames do regime
soviético e do seu chefe supremo, está presente na carta enviada pelo secretário-geral do Partido Comunis-
ta da Ucrânia, Stanislav  Kossior, em 15 de março de 1933, para  oscou: " a insatisfatória evolução das se-
menteiras em numerosas regiões, prova que a fome ainda não levou à razão muitos kolkhozianos ".
Para garantir as condições necessárias às futuras colheitas, entre janeiro e  junho de 1933, as autoridades
centrais adotaram de forma tardia, várias medidas de auxílio a algumas regiões atingidas por " dificuldades
alimentares ".Para  cerca  de  30 milhões  de pessoas  afetadas  pela  fome, são disponibilizadas 320 mil
toneladas de cereais que se destinam unicamente aos que "merecem": os kolkhozianos com melhor rendi-
-mento, os brigadistas, os tratoristas, etc.

As conseqüências

          Em termos  demográficos, a mortalidade na Ucrânia, à semelhança dos outros  territórios soviéticos
atingidos  pela  fome, incidiu fundamentalmente sobre a população rural, independentemente da sua origem
nacional. No entanto, o regime  soviético  tinha  a perfeita consciência de que essa população continuava a
representar  a " espinha  dorsal " da  nacionalidade  ucraniana ( 75%  a  85%  dos ucranianos residiam  em
aldeias ), em contraste com as cidades que se caracterizavam por serem etnicamente mais "cosmopolitas"
(russos, judeus, polacos,etc.). Por conseguinte, a fome adquiriu características e dimensões bem distintas
das que teria evidenciado noutras circunstâncias políticas. Apesar de ser bastante menos intensa e genera-
-lizada do que a fome de 1921-1922, em termos de seca e de regiões afetadas ( a colheita de 1945 foi infe-
-rior à de 1932, mas não existiu  fome  generalizada ), causou entre três a quatro  vezes  mais  vítimas, em
resultado de decisões políticas que procuravam salvar o regime da crise, que ele próprio tinha provocado.
           A convicção de que se tinha alcançado uma vitória definitiva  sobre o campesinato, foi assumida em
diversas ocasiões, pelos altos dignitários do regime. São disso exemplo, as palavras de Lazar  Kaganovitch
 "nós ganhamos definitivamente a guerra, a vitória é nossa, uma vitória fantástica, total, a vitória do  stalinis-
mo", de  Sergo  Ordjonikidze, "os nossos quadros que enfrentaram a situação de 1932-1933 e que agüenta-
ram [...]  ficaram  temperados como o aço, acredito que com eles se construirá um Estado como a história
nunca viu" ou de Mendel Khataevich, "está a decorrer uma luta feroz entre os camponeses e o poder. É um
combate  até  à última gota de sangue. É uma  prova de  força entre  o  nosso poder e a sua resistência. A
fome demonstrou  quem é o mais forte. Custou milhões de vidas, mas o sistema dos kolkhozes viverá para
sempre. Vencemos a guerra!".
No  decurso da tragédia, o Estado soviético  continuava  a exportar milhões de toneladas de cereais para o
estrangeiro ( em 1932,1.730.000; em 1933,1.680.000 ), enquanto acumulava enormes reservas estratégicas
( em 1933, 1.800.000 toneladas ).

 A repressão das elites ucranianas

       O escritor Mykola Khvylovy: uma das vítimas da vaga de terror contra às elites ucranianas, suicidou-se
 em 13 de maio de 1933.
        Devido  à  convicção de que, na Ucrânia e no Kuban, a questão camponesa era também uma questão
nacional, o regime soviético sentiu necessidade de as enfrentar e de as “resolver” de forma conjunta. E para
que  esta  resolução  fosse duradoura, procedeu à eliminação  das  elites  ucranianas e  das suas políticas,
suspeitas de conivência com os camponeses.
        Em 14 e 15 de dezembro de 1932, o Politburo aprovou dois decretos específicos para os territórios de
população ucraniana, que revogavam a política das nacionalidades, aplicada desde 1923. Na sua  perspec-
-tiva, a política de indigenização “ Korenizatsiya”  fora desenvolvida de  forma errada na Ucrânia e no Kuban,
tendo estimulado o nacionalismo e  os seus agentes, inclusive no interior do Partido e do Governo. Por isso,
os camponeses não eram os únicos culpados da crise, partilhando a responsabilidade com a elite política e
cultural ucraniana. Esta mudança também afetou as medidas de " ucranização ",  aplicadas na Rússia.  Ao
contrário das outras  minorias  nacionais, os  milhões de  ucranianos  que  aí  viviam,  perderam o direito ao
sistema  educativo e à imprensa em seu idioma, bem como à autonomia  política.
           Com  a chegada, em  janeiro  de 1933, de Pavel  Postychev, acompanhado de centenas de quadros
russos, na  qualidade  de  novo  plenipotenciário de Moscou na Ucrânia, desencadeia-se uma vaga de terror
anti-ucraniano. A  polícia  política perseguiu com obstinação as “ organizações contra-revolucionárias nacio-
-nalistas ” -  alegadamente  infiltradas  dentro  das  instituições  políticas e culturais - causando milhares de
vítimas. No âmbito das "limpezas",são reprimidos 70% dos secretários distritais e dos sovietes; entre janei-
ro e outubro de 1933; 40 mil funcionários dos sovietes; a quase totalidade dos quadros do comissariado do
povo para a educação; 4 mil professores e 200 funcionários dos institutos pedagógicos.
Por sua vez, individualidades importantes, como o dirigente partidário Mykola Skrypnyk acusado de ser um
" instrumento de elementos nacionalistas "; o escritor Mykola Khvylovy, ou o diretor teatral Les Kurbas, são
alvo de perseguição.
No seu discurso ao Partido Comunista ucraniano, em novembro, Pavel Postychev revela de forma eloqüente
a  análise  conspirativa  que o regime fazia  da situação nesta  república: " os erros e falhas cometidos pelo
Partido Comunista da Ucrânia, na implementação da política das nacionalidades, foram uma das  principais
causas para o declínio da agricultura ucraniana em 1931 - 1932. Não  restam dúvidas de que sem a elimina-
-ção dos erros na implementação da política das nacionalidades, sem a derrota esmagadora dos elementos
nacionalistas, que se tinha instalado em diversas áreas da construção social na Ucrânia, teria sido impossí-
-vel superar o atraso na agricultura ".

Regressão, herança e genocídio.

           Com o seu cortejo de violências, de torturas e de chacinas pela  fome, o Holodomor  constituiu uma
enorme regressão  civilizacional. Assistiu-se à proliferação de déspotas locais, dispostos a tudo, para extor-
-quirem aos camponeses  as suas reservas alimentares, e à banalização da barbárie: desordem, abusos de
autoridade, banditismo, crianças  abandonadas, canibalismo e agravamento das tensões entre a população
rural e a população urbana.
Apesar da herança do Holodomor apresentar similaridades com as de outras regiões da União Soviética, a
arma da fome esmagou a resistência  camponesa, garantindo a vitória de  Stalin e do seu regime totalitário;
abriu o caminho para a vaga de  terror de 1937-1938 " Yejovschina "; transformou o estado federal soviético
num império despótico, através da submissão da segunda mais importante  república; deixou um legado de
dor em numerosas famílias que nunca tiveram direito a expressar o luto, porque a fome se converteu em se-
-gredo de Estado; na Ucrânia as suas marcas físicas e psicológicas foram extremamente mais profundas e
traumatizantes. Essas marcas são o resultado da especificidade que caracterizou a evolução dos aconteci-
-mentos na Ucrânia e no Cáucaso do Norte, e que conferem ao Holodomor o seu caráter de genocídio: uma
taxa de mortalidade superior às das outras repúblicas  ( a taxa de mortalidade por mil habitantes, em 1933,
foi de 138,2  na Rússia e de 367,7  na Ucrânia ); os  milhões  de vítimas  cranianas, incluindo as da região
de  Kuban, e os outros milhões de ucranianos submetidos a uma política de russificação, depois de dezem-
-bro de 1932;  um decréscimo de 20% a 25% da população de etnia ucraniana; a decisão de Stalin em utili-
-zar a fome numa perspectiva anti-ucraniana, de acordo com a 'interpretação nacional' da crise das coletas,
no verão de 1932; a eliminação de uma grande parte da elite política e intelectual da república.Deste modo,
toda  a  sociedade  ucraniana  foi  sujeita a uma  norme violência, comprometendo, por muitas décadas, o
processo de construção da identidade nacional.

Quantas vítimas?

      Com relação à definição exata do número de vítimas do Holodomor, os historiadores têm deparado com
 várias dificuldades: a  mortalidade diretamente  imputável  às  epidemias  de  tifo; a  política de  secretismo
imposta  pelo  regime; ao  proibir  os funcionários  dos  sovietes rurais de mencionar a fome como causa de
morte; a  desorganização  dos  registros  em  conseqüência  do  falecimento  ou  fuga  do  funcionários das
regiões dizimadas; a circunstância de muitas vítimas terem ficado insepultas, enterradas em valas comuns;
as migrações de camponeses famintos para outras repúblicas, ou a mudança de nacionalidade.
Apesar  da existência  de estimativas que  vão de 4,5 a 10 milhões de vítimas na Ucrânia, os cálculos mais
recentes, com base  em fontes dos arquivos soviéticos, indicam  um número entre  6 e 7  milhões. Por sua
vez, calcula-se que 1,3 a 1,5 milhões tenham morrido no Cazaquistão, e centenas de milhares no Cáucaso
do Norte e  nas regiões dos rios Don e Volga, onde a área mais duramente atingida correspondia ao territó-
-rio da  República  Socialista Soviética  Autônoma Alemã  do Volga, totalizando  9 a 10 milhões de vítimas,
entre 1931 e 1933.

Da negação ao reconhecimento

      
Uma "página em branco" Ao visitar a Ucrânia, em 1933, o político francês Édouard Herriot comparou-a
a uma " horta  em pleno rendimento ". A fome na União Soviética e na Ucrânia constituiu-se desde o início,
segredo de Estado, permanecendo durante meio século como uma “página em branco” da sua história.
Em  janeiro  de  1933, o  ministro dos negócios estrangeiros, Maksim Litvinov, contrariando as informações
veiculadas por jornais europeus e norte-americanos, negou a existência de qualquer problema, e em feverei-
-ro, o  Politburo emitiu uma resolução, no sentido de restringir as deslocações dos correspondentes estran-
-geiros. Também  foram rejeitadas as ofertas de auxílio humanitário de várias entidades: o cardeal de Viena
Theodor Innitzer,o metropolita greco-católico de Lviv Andrii Szeptycki, o Comitê Internacional da CruzVerme-
-lha, etc.
Por  outro  lado, diversas  personalidades  estrangeiras,  como Edouard  Herriot, Walter  Duranty ou George
Bernard Shaw, contribuíram, de forma deliberada ou inconsciente, para a sua ocultação.
O  próprio  Stalin, ao  receber em  dezembro de 1932, o dirigente ucraniano, Rodion Terekhov, manifestou a
sua posição negacionista: “Deram-me conhecimento de que é um bom orador, mas também estou a ver que
é um bom contador de histórias. Você  elaborou  uma fábula acerca de uma pretensa fome, pensando certa-
-mente que me assustava, mas isso não ocorreu, em vez disso deveria deixar as suas funções de secretário
regional e de membro do comitê central da Ucrânia e trabalhar para a união dos escritores. Você escreveria
fábulas e os imbecis liam-nas”.
Não  obstante existência de numerosa documentação contemporânea aos fatos ocorridos, correspondência
diplomática  italiana, britânica e alemã; declarações de jornalistas ocidentais, como Gareth Jones e Malcom
Muggeridge; relatos de simpatizantes do regime, como Harry Lang e Adam Tawdul; testemunhos de dignitá-
-rios desiludidos com o stalinismo como Fyodor Raskolnikov, ainda persiste atualmente a tese negacionista
do Holodomor.
Em  1984, depois de  uma campanha  promovida pela comunidade ucraniana dos  E.U.A., as duas câmaras
do Congresso aprovaram a constituição da U.S. Comission  on  the  Ukraine  Famine, sob a direção do prof.
da Universidade de  Harvard,  James  Mace. No seu relatório apresentado ao Congresso em 1988, a comis-
-são reconheceu como provado o caráter genocída da fome de 1932-1933.
Por outro lado, graças aos esforços da mais importante organização da diáspora, o Congresso Mundial dos
Ucranianos Livres,  foi  criada,  em  14  de fevereiro  de 1988, a International Commission of Inquiry  into the
1923-33 Famine in Ukraine. Esta comissão, presidida pelo professor da  Universidade de Estocolmo Jacob
Sundberg, era formada por sete juristas de diferentes países: Reino Unido, Canadá, França, E.U.A., Suécia,
Bélgica e Argentina.
No relatório final (1990), apresentado ao subsecretário da O.N.U. para os Direitos Humanos e ao presidente
da Assembléia Parlamentar do Conselho da Europa, a comissão anunciou as seguintes conclusões: existiu
uma  fome  artificial  na Ucrânia entre agosto de 1932 e julho de 1933; a fome foi imposta ao povo ucraniano
pelo regime soviético, tendo  causado um mínimo de 6 milhões de mortes na Ucrânia, além de 3 milhões de
vítimas em outras regiões da U.R.S.S.
Depois  do  trabalho  pioneiro  de  Robert  Conquest,  The Harvest  of Sorrow: Soviet Collectivization and the
Terror-Famine (1986), da revolução arquivística e historiográfica de 1991, os  meios  acadêmicos passaram
a dedicar uma crescente atenção a este acontecimento.
    Durante os anos noventa, em resultado da acumulação de novos conhecimentos, aprofundou-se o debate
sobre  a  natureza  da  fome. Esse debate, muitas vezes influenciado por divergências de caráter ideológico,
foi protagonizado por diferentes interpretações: a "revisionista" , que relatava a dimensão criminal ( Stephen
Wheatcroft  ou  Mark  Tauger ); a  "nacionalista", que  salientava a especificidade  genocída  do  Holodomor ucraniano   ( James  Mace  ou  Yurii  Shapoval )  e  a “campesina”, que  destacava, numa perspectiva  pan-
soviética, a  repressão do campesinato, através da instrumentalização  da fome ( Nikolai Ivnytsky ou Viktor
Kondrashyn).
As celebrações dos 70 anos do Holodomor, em 2003, representaram um ponto de destaque, nomeadamen-
-te com a realização de uma importante conferência internacional, em Vicenza (Itália). Deste encontro cien-
-tífico  patrocinado pelo  presidente  da  República  Carlo Ciampi, resultou uma declaração subscrita por 28
personalidades  acadêmicas  da  Itália,  Alemanha,  Ucrânia,  Polônia, Canadá  e  E.U.A. apelando a Silvio
Berlusconi , que exercia a presidência rotativa da União Europeia, e a Romano Prodi, presidente da Comis-
-são  Européia, no sentido de promover o reconhecimento internacional do  Holodomor como um ato de ge-
-nocídio.

A posição da comunidade internacional

          
Em 1933, o governo ucraniano no exílio apelou, sem êxito, à intervenção da Sociedade das Nações,
então presidida pelo Primeiro-Ministro da Noruega Johan Mowinckel.
          A partir da segunda metade dos anos oitenta, a comunidade internacional tem gradualmente vindo a
assumir  posições  favoráveis  ao  reconhecimento  do Holodomor como genocídio, ou mais genericamente,
como um crime contra a Humanidade.